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Egípcios
Como assinalou o historiador grego Heródoto, no
século V a.C., "O Egito é uma dádiva do Nilo." Desde os
primeiros momentos de sua história, os egípcios criaram uma
sociedade baseada no aproveitamento das águas do Nilo para a
agricultura, mediante a construção de obras hidráulicas capazes
de regular sua vazão anual. No plano institucional, configuraram um
rígido e hierárquico sistema político que se manteve, com
pequenas mudanças, durante cerca de três mil anos.
Origens. Os
muitos estudos de egiptologia revelaram que o povo egípcio antigo
resultou da fusão de vários grupos de origem africana e asiática,
e permitiram distinguir três tipos principais: um semítico dolicocéfalo,
de estatura mediana; outro semítico-líbio, braquicéfalo, de nariz
recurvado; e um terceiro, mediterrâneo, braquicéfalo, de nariz
reto e curto. Da mistura desses grupos resultou um povo de
lavradores, no vale do Nilo, que absorveu progressivamente os
estrangeiros invasores.
Até o século XIX, as únicas fontes utilizáveis sobre as
dinastias do Egito eram os relatos dos autores clássicos, de épocas
posteriores aos acontecimentos por eles descritos. Somente em 1821,
com a decifração da escrita hieroglífica, por Champollion, é que
se pôde proceder à leitura de inscrições, que iluminaram mais de
três mil anos da história da humanidade.
O período histórico da civilização egípcia começou por volta
de 4000 a.C. Os primitivos clãs haviam sido transformados em províncias
ou nomos, e seus chefes elevados à dignidade real. Mais tarde foram
agrupados em dois grandes reinos: um ao norte, cujo primeiro
rei-deus foi Horus, e outro ao sul, que teve Set como primeiro
rei-deus. Por volta do ano 3300 a.C., segundo a tradição, o reino
do sul venceu o do norte. Quando as dinastias humanas sucederam às
dinastias divinas, Menés, personagem lendário e apontado como
unificador do Egito, se tornou o primeiro faraó. A capital era,
segundo alguns autores, Mênfis, e segundo outros, Tinis, nas
proximidades de Abidos. Menés é identificado como Narmeza
(Narmer), representado, num relevo de Hieracômpolis, com as duas
coroas dos reinos unificados.
Dinastias. As
escavações realizadas em Abidos, Saqqara e localidades próximas
trouxeram informações sobre as primeiras dinastias, denominadas
tinitas por terem a capital em Tinis. Neste período houve um
aumento da prosperidade econômica do país, incrementado pelas
expedições à costa do mar Vermelho e às minas de cobre e
turquesa do Sinai.
Com a III dinastia, iniciada em 2650 a.C., a capital foi trasladada
para Mênfis e os faraós iniciaram a construção das pirâmides,
grandes túmulos reais. Inicia-se então o chamado Antigo Império,
que vai até a VIII dinastia. Erguem-se as pirâmides de Quéops, Quéfren
e Miquerinos, faraós da IV dinastia, e a esfinge de Gizé. A arte
egípcia já se apresentava com todas as suas características,
nessa época de maior esplendor da civilização egípcia. O território
se estendeu até a segunda catarata do Nilo, e realizaram-se expedições
à Núbia e à Líbia. Aumentou o comércio marítimo no Mediterrâneo
oriental e se iniciou a exploração das minas de cobre do Sinai,
das pedreiras de Assuã e do deserto núbio.
A VI dinastia realizou expedições à península do Sinai e sob
Pepi II multiplicaram-se as imunidades concedidas aos nobres. Os
chefes dos nomos se tornaram mais independentes e desapareceu o
poder centralizador do faraó. Após longa fase de lutas internas,
que marcaram o fim do Antigo Império, o Egito entrou em decadência.
No século XXII a.C., os príncipes de Tebas afirmaram sua independência
e fundaram a XI dinastia, dos Mentuhoep, dando início ao Médio Império,
que durou de 1938 a c. 1600 a.C., com capital em Tebas.
Restaurou-se e consolidou-se o poder real. Sobressaíram na XII
dinastia, também tebana, Amenemés I, Sesóstris I e Amenemés III,
que colonizaram a Núbia e o Sudão, intensificaram o comércio e as
relações diplomáticas e fizeram respeitar as fronteiras egípcias.
O segundo período intermediário, que abrange da XIII à XVII
dinastia, entre c. 1630 e 1540 a.C., é de história obscura. Por
falta de fontes é impossível analisar o conjunto de causas
determinantes da decadência do estado tebano. Sob a XIV dinastia
ocorreu a invasão dos hicsos. Os monarcas da XVII dinastia abriram
luta contra eles e ferimentos encontrados na múmia de Seqenenre
parecem indicar sua morte em combate.
Ahmés ou Ahmose I assumiu o comando, expulsou definitivamente os
hicsos e fundou a XVIII dinastia. Iniciou-se então o mais brilhante
período da história egípcia, o chamado Novo Império, entre 1539
e 1075 a.C., que abrange também a XIX, a XX e a XXI dinastias. Como
grandes conquistadores, sobressaíram Tutmés I e III, da XVIII
dinastia, Ramsés II (XIX dinastia), Ramsés III (XX dinastia) e
Iknaton, Akenaton ou Amenhotep IV (XVIII dinastia), por sua reforma
religiosa.
Após cerca de trinta anos de paz interna, o Egito, rico e forte, pôde
entregar-se às novas tendências imperialistas. Tornou-se um estado
essencialmente militar e por 200 anos dominou o mundo então
conhecido. Alargaram-se as fronteiras do país, da Núbia até o
Eufrates. Os príncipes da Síria, Palestina, Fenícia, Arábia e
Etiópia pagaram-lhe tributos. O tratado firmado em 1278 a.C. com
Hattusilis III terminou com a secular guerra com os hititas. O luxo
e o poder econômico refletiram-se nas grandes construções desse
período. Com Ramsés XI findou o Novo Império. Rebentaram guerras
civis e o Egito entrou em decadência, perdeu territórios e sofreu
invasões.
Por volta de 722-715 a.C., uma dinastia etiópica, com capital em
Napata, restaurou parcialmente a unidade nacional. Em 667 a.C.,
Assaradão invadiu o Egito e ocupou Mênfis. Em 664 a.C.,
Assurbanipal tomou e saqueou Tebas. Os egípcios, comandados pelos
chefes do delta, reagiram e em 660 a.C., Psamético I, fundador da
XXVI dinastia, expulsou os assírios. O Egito voltou a conhecer nova
fase de esplendor, chamada de renascimento saítico, devido ao nome
de sua capital, Saís. Em 605 a.C., Necau II tentou conquistar a Síria,
mas foi derrotado por Nabucodonosor. Em seu governo concluiu-se o
canal de ligação entre o Mediterrâneo e o mar Vermelho e, sob
seus auspícios, marinheiros fenícios contornaram a África.
Em 525 a.C., o último soberano nacional egípcio, Psamético III,
foi derrotado e morto por Cambises, rei dos persas, em Pelusa. O
Egito foi incorporado ao império persa como uma de suas províncias
(satrapia). A partir de então, até Artaxerxes II, reinou a XXVII
dinastia persa. A organização social e religiosa foi mantida e
registrou-se certo desenvolvimento econômico. A libertação do
Egito se deu em 404 a.C. Com Armiteu, único faraó da XXVIII
dinastia, a aristocracia militar do delta subiu ao poder. As
instituições e a cultura revigoraram-se sob as XXIX e XXX
dinastias. Depois de saquear o país, Artaxerxes III restaurou a
soberania persa, em 343 a.C. O segundo período da dominação persa
terminou em 332 a.C., quando Alexandre o Grande da Macedônia,
vitorioso, entrou no Egito, após derrotar Dario III.
Período macedônio ou
ptolomaico. Nesse período, que vai até o ano
30 a.C., Alexandre foi recebido como libertador e fez-se reconhecer
como "filho de Amon", sucessor dos faraós, prometendo
respeitar as instituições e restaurar a paz, a ordem e a economia.
Lançou as fundações da cidade de Alexandria. Com sua morte em 323
a.C., o controle do Egito passou a um de seus generais, Ptolomeu,
que a partir de 305 a.C. iniciou a dinastia dos lágidas. Dentre
seus herdeiros destacaram-se, inicialmente, Ptolomeu Filadelfo, cujo
reinado durou de 285 a 246 a.C. e se notabilizou pela expansão
comercial, a construção de cidades, e a criação de um museu e da
biblioteca de Alexandria; sucedeu-lhe Ptolomeu Evérgetes, que
reinou de 246 a 222 a.C. e impulsionou as letras e a arquitetura; e
finalmente Ptolomeu Epífano, coroado em 196 a.C., que foi
homenageado com a redação do decreto da pedra de Rosetta, em 204
a.C.
Atacado por reinos helenísticos, o Egito colocou-se sob proteção
romana, com submissão cada vez maior. Seguiram-se vários e cruéis
reinados dos lágidas, até Ptolomeu Auletes que, com apoio romano,
permaneceu no poder até 51 a.C., quando foi expulso pelos egípcios.
Sua filha Cleópatra VII desfez-se, sucessivamente, de dois irmãos
e apoiou-se no imperador romano Júlio César. Com a morte deste, em
44 a.C., ligou-se a Marco Antônio, mas diante da derrota frente às
esquadras romanas, e do assassinato, ordenado por Otávio, do jovem
Ptolomeu César, filho que tivera com César, suicidou-se em 30 a.C.
O Egito foi então transformado em província romana. Soberanos de
direito divino e culto imperial, os lágidas restauraram os templos,
honraram a classe sacerdotal e entregaram a administração aos
gregos. Alexandria, cidade grega por suas origens, comércio e
cultura, foi o centro intelectual e comercial do mundo helenístico.
Período romano-bizantino.
Em 30 a.C., iniciou-se o período romano-bizantino. A minoria romana
conservou a organização da época helenística, com base nos nomos
(províncias). O camponês era esmagado por altos impostos e requisições.
A indústria e o comércio, que deixaram de ser monopólio estatal,
ganharam impulso e atingiram as mais distantes regiões. A passagem
dos romanos foi marcada ainda pela construção de estradas,
templos, teatros, cisternas, obras de irrigação e cidades. Uma
destas foi Antinópolis, construída por Adriano.
No final do século II da era cristã generalizaram-se os ataques nômades
às fronteiras (Líbia, Etiópia, Palmira) e as perseguições
ligadas à expansão do cristianismo. Após Constantino, começam as
disputas religiosas. Em 451 a adesão da igreja alexandrina ao
monofisismo levou à formação de uma igreja copta, distinta da
grega, e dessa forma o que era tido como heresia, por força das
perseguições imperiais, transformou-se na religião nacional egípcia.
Com a divisão do Império Romano verificou-se uma progressiva
substituição de Alexandria por Constantinopla em importância
cultural e econômica. No século VI o declínio econômico era
generalizado em todos os setores. E no início do século VII os árabes
foram recebidos como autênticos libertadores.
Período medieval.
Época árabe. No
ano 640, com a conquista do Egito pelos árabes, começou a era
medieval, que durou até 1798. O período árabe caracterizou-se por
lutas internas e constante troca de emires. A difusão do árabe e
do islamismo transformou a invasão muçulmana na mais importante de
todas as que o Egito sofreu. De sua história restou o copta,
designação apenas religiosa. A princípio o Egito foi transformado
em uma província do califado dos omíadas, de Damasco, que
transferiram a capital para al-Fustat, construída nas imediações
da fortaleza da Babilônia, erguida pelos romanos, no lugar hoje
ocupado pela cidade velha do Cairo. Os omíadas conservaram o
sistema administrativo egípcio e seus funcionários, mas o governo
era exercido por um emir, auxiliado por um amil, ou diretor de finanças.
O processo de islamização reacelerou com os abássidas, de Bagdá,
cujo poder, no entanto, enfraqueceu ao longo do século IX.
Época independente.
Este período corresponde a quatro dinastias, entre 868 e 1517: os
tulúnidas, os ikhchiditas, os fatímidas e os aiúbidas. Compreende
ainda um domínio por parte dos mamelucos.
A dinastia dos tulúnidas dominou de 868 a 905 e foi fundada pelo
oficial turco Ahmad ibn Tulun, que proclamou a independência do país
em relação a Bagdá. Os ikhchiditas governaram independentemente
entre 939 e 968, depois de um breve retorno a Bagdá. Entretanto, um
novo poder militar agressivo, oriundo da Tunísia, se apoderou do
Egito, sob a família dos fatímidas, que se consideravam
descendentes do califa Ali e de Fátima, filha de Maomé. Adeptos da
doutrina xiita, governaram entre 969 e 1171. Uma nova capital foi
fundada, al-Qahira (Cairo) em 988, e o Egito, organizado como
califado, passou a usufruir de notável desenvolvimento econômico e
cultural. Foi fundada a mesquita e a universidade de al-Azhar, em
970, e o tesouro dos califas passou a incluir a mais valiosa
biblioteca do mundo muçulmano da época.
As disputas internas possibilitaram a intervenção do sultão de
Damasco, Nur-al-Din, por intermédio do general Shirgu e de seu
sobrinho Saladino (Sala al-Din Yusuf ibn Ayyub). Este, feito vizir
em 1169, proclamou-se sultão do Egito logo após a morte do califa,
dando início à dinastia dos aiúbidas, que reinaram de 1171 a
1250, e destacaram-se como grandes administradores. Reconstituíram
um grande estado, da Tripolitânia à Mesopotâmia, dedicaram-se à
agricultura de irrigação, ao comércio, às obras militares, à
construção de escolas, hospitais e mesquitas. Lutaram contra os
cruzados na Palestina, porém lutas internas minaram o poder. A
crescente influência de oficiais mamelucos (conjunto de diferentes
etnias, tais como turcos, mongóis, curdos etc.), tornou-se
preponderante.
Uma milícia de mamelucos bahri, isto é, "do rio", tomou
o poder em 1250 sob o comando de Izz al-Din Ayback. Os sultões
mamelucos imperaram no Egito até 1517. Embora o período fosse de
paz e prosperidade econômica, ocorreram tremendas perseguições a
judeus e cristãos. Com os mamelucos, cessou qualquer sucessão
hereditária e o sultão passou a ser eleito pelos emires, o que
caracterizou uma verdadeira oligarquia feudal-militar.
Domínio otomano. Em
1517 Selim I derrotou o último sultão mameluco, Tuman-bei, e
iniciou o período de domínio turco, caracterizado por tirania e
instabilidade. No século XVIII o paxá era figura decorativa e
sucediam-se as lutas pelo poder entre os beis. Foi nessas condições
que Napoleão Bonaparte conquistou o Egito, em 1798, na batalha das
Pirâmides.
Religiões do Egito
Até a unificação
dos povos do vale do rio Nilo e o surgimento das dinastias dos faraós
(3.000 a.C.), existem no Egito vários grupos autônomos, com seus
próprios deuses e cultos. Durante o período dinástico (até 332
a.C.) os egípcios são politeístas. Os faraós são considerados
personificações de deuses e os sacerdotes constituem uma casta culta
e de grande poder político. O monoteísmo acontece apenas durante o
reinado do faraó Amenofis IV, que muda seu nome para Akenaton, em
homenagem ao deus-sol. As pirâmides e os templos são alguns dos
registros da religiosidade do povo egípcio, da multiplicidade de seus
deuses e do esplendor de seus cultos.
Divindades
egípcias - A principal divindade é o deus-sol (Rá). Ele
tem vários nomes e é representado por diferentes símbolos: Atom,
o disco solar; Horus, o Sol nascente. Os antigos deuses locais
permanecem, mas em segundo plano, e as diferentes cidades mantêm suas
divindades protetoras. Várias divindades egípcias são
simbolizadas por animais: Anúbis, deus dos mortos, é o chacal;
Hator, deusa do amor e da alegria, é a vaca; Khnum, deus das fontes
do Nilo, é o carneiro e Sekmet, deusa da violência e das
epidemias, é a leoa. Nas últimas dinastias difunde-se o culto a Ísis,
deusa da fecundidade da natureza, e Osíris, deus da agricultura,
que ensina as leis aos homens.
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