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MAHJAR – saga libanesa no Brasil
Quase toda
vez que falamos de libaneses, sírios, ou de outros povos árabes,
costumamos chamá–los de "turcos". Os mais velhos ainda ficam indignados e
"respondem" com um sorriso enviesado, pensando na ignorância histórica dos
brasileiros, outros ainda tentam explicar, mas a maioria "deixa pra lá".
Este mal–entendido é devido ao período da vinda dos primeiros imigrantes
árabes, entre fins do século XIX e começo do XX, provenientes do que se
chamava "Grande Síria", um território amplo, que englobava os atuais
Líbano, Síria e parte da Jordânia, sob o domínio do Império Turco–Otomano,
aquele mesmo que "fechou" Constantinopla e apressou o processo das Grandes
Navegações do século XVI.
Quando aquelas pessoas (com uma grande
percentagem de homens solteiros) apresentavam o passaporte às autoridades
brasileiras, lá estava o carimbo identificando–os como turcos, ou súditos
daquele Império. Ainda não existiam os países como nação, com um governo
próprio e fronteiras definidas. Era comum as pessoas se identificarem pela
província ou cidade de origem, com a opção ou tradição religiosa tendo
papel preponderante na suas agregações no novo país.
A razão da
vinda dos primeiros "orientais do Crescente", para o nosso país, foi a
excelente acolhida e receptividade que teve a visita do Imperador D. Pedro
II àquela parte do mundo. Falando em árabe, nosso imperador impressionou
não só as autoridades mas também a população, motivando a imigração de
centenas de pessoas para "aquele país exótico e distante" chamado
Brasil.
Foi somente após a Primeira Guerra, com a derrota dos
turcos, aliados do decadente (outro) Império Austro–Húngaro, que os países
europeus, especialmente Inglaterra e França, dividiram os territórios em
protetorados sob sua vigilância, agradando alguns e desagradando outros,
mas mantendo o controle sobre os poderosos locais, fossem califas, sheiks
ou líderes políticos e religiosos. A população não estava alheia a isto, e
se manifestava quando e onde era possível. Por exemplo, os livros de
Gibran Khalil Gibran, apesar de serem de conteúdo espiritualista,
continham uma crítica tremenda aos governantes turcos, sendo queimados em
praça pública, banidos, e seu autor teve de se refugiar nos
EUA.
Aqui no Brasil, embora a maioria dos imigrantes fosse
proveniente de áreas rurais, com pequenas plantações ou pastoreio,
acabaram sendo identificados pela atividade de mascatear, talvez um antigo
traço cultural herdado dos fenícios.
Atualmente existem mais de
três mil entidades árabes no Brasil, entre clubes, sociedades de
beneficência, escolas, jornais, etc. Os laços de parentesco e a
proximidade com os patrícios (ou deveríamos dizer "concidadãos") são a
razão mais forte, sobrepujando possíveis diferenças políticas e
religiosas.
Para mostrar esta riqueza cultural e histórica, com o
foco na colônia libanesa, o Memorial do Imigrante resolveu sediar e
organizar a exposição MAHJAR – saga libanesa no Brasil, para que o
público em geral, e especialmente a comunidade árabe, tomassem um contato
mais profundo com estes fatos históricos e, mais uma vez, desfazer a
imagem negativa que a mídia mundial faz dos árabes e sua cultura,
especialmente após 1 ano do atentado ao WTC. Em tempo, "mahjar" significa
imigração em árabe.
Mas em que medida esta exposição se diferenciou
das demais? Vejamos: ela foi fruto da pesquisa e trabalho de seu curador,
Roberto Khatlab, um brasileiro descendente de árabes,
historiador e arqueólogo, residente atualmente no Líbano, o que leva–o a
conhecer as duas culturas e as histórias desses países. Outro fator,
talvez o mais marcante, seja o de "ponto de vista", pois grande quantidade
daquelas fotografias foram mandadas pelos imigrantes para seus parentes e
conhecidos no Líbano, mostrando uma imagem que os próprios imigrantes
criaram do Brasil: uma terra rica, onde havia fartura e as oportunidades
estavam ao alcance de todos aqueles que tivessem capacidade.
A
exposição MAHJAR – saga libanesa no Brasil contou com cerca de 70
fotos, em preto e branco, do final do século XIX até a década de 60 do
século passado, e também com documentos e objetos que marcaram época,
tendo um contraponto interessante nas fotos coloridas do Líbano atual,
histórico e turístico, retratado pelo fotógrafo libanês Jacques Menassa.
Além disso, em uma homenagem ao "mascate", foi montada uma réplica de uma
pequena loja num "souk" (bazar árabe), com a comercialização de produtos
de origem libanesa. Na ocasião, foi lançado o livro Mahjar – saga
libanesa no Brasil, de Roberto Khatlab, uma edição
bilíngüe (português/árabe), disponível para a venda no Memorial.
A exposição foi realizada de 18 de setembro a 17 de novembro de 2002
** Esta matéria foi autorizada
pelo autor do livro Mahjar o escritor Roberto Khatlab
Fonte: Site do Memorial
do Imigrante
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